Viver em uma torre escrevendo histórias do passado nunca foi o meu sonho de infância. Pensei que poderia crescer e pegar em uma espada pesada para derrotar meus inimigos. Mas nunca fui um homem de intimidar os inimigos. Eu era desprovido de músculos intimidadores.

Ainda jovem descobri minha habilidade com a magia quando coloquei fogo na mesa de casa. Com certeza, aquela mesa queimada me custou caro. Comecei a trabalhar entregando cartas por todo o reino para comprar uma nova. Ossos do ofício conheci muitas pessoas e comecei a levar . E até os dias de hoje, quando alguém precisa de uma informação, sou procurado na torre do Castelo, onde passei a morar quando meus serviços à coroa se tornaram muito frequentes.

O castelo da cidade Olbai é onde moro e acompanho a liderança do Rei Thereus. Um homem justo, mas com ciúmes descontrolado por sua filha Lilian, a Princesa. A Jovem Lilian cresceu rapidamente, sendo mais perigosa em um campo de batalha que qualquer outro guerreiro que conheça. Bom, talvez Darius Lork, o campeão de batalha da cidade possa ser um perigo maior, e por sorte está do nosso lado.

A Princesa foi treinada na arte sutil de manejar um arco. Seu mestre fora Gartur, um homem astuto e perigoso. Em um piscar de olhos podia derrubar dezenas de inimigos com suas flechas assassinas. O Mestre Gartur sempre cuidava da Princesa como uma irmã mais nova. A Princesa sempre ouvia os conselhos do mestre e gostava de estar perto dele. E esse foi o grande problema. Por viverem muito tempo juntos, acordou o ciúmes do Rei Thereus que o mandou embora em uma manhã de inverno. Deu algumas peças de ouro e pediu para partir, justificando que a presença dele poderia atrapalhar o crescimento da Princesa.

A partida de Gartur foi uma surpresa para todos. Por respeito ao Rei ele partiu para o norte, próximo as montanhas da morte e nunca mais foi visto. Alguns dizem que ele morreu para os Orcs que vivem na região, ou até por outras criaturas pouco conhecidas. Eu particularmente acho improvável que tenha morrido, pois era um habilidoso guerreiro e capaz de enfrentar e derrotar qualquer desafiante.

Com a ida do mestre, Lilian ficou sozinha. O rei imediatamente chamou as duas irmãs gêmeas da família Huffie, Alicia e Helena. Que os Deuses me perdoem a ousadia, mas as irmãs são realmente espetaculares. Helena também era treinada na arte do arco, tornando-se uma ótima companheira para a Princesa. Alicia era astuta e ótima conselheira, conhecedora da magia. As três juntas formavam o trio das mais belas mulheres do Reino. Apenas se a rainha ainda fosse viva,a beleza das três seria rivalizada. Infelizmente no parto, quando Lilian nasceu, apenas uma pode sobreviver. E só Furior sabe o motivo pelo qual a bebê foi a escolhida para viver.

Alguns verões se passaram até que Lilian chegasse a maior idade. O Rei estava ficando velho e a Princesa era a única herdeira do trono. Poucas pessoas do reino tiveram o contato com a gentil princesa. E o Rei precisava mostrar ao reino quem iria assumir, assim que ele partisse desta terra e viajasse entre os planos até a terra de paz.

O sol já estava começando a descer de seu ponto central em um dia quente de verão quando alguém bateu à porta do meu quarto. Olhei desconfiado para ela, ninguém vinha essa hora do dia, logo após o almoço. Peguei meu manto e coloquei em cima de meus ombros, já que estava sem camisa devido o calor que fazia na torre. Abri a porta.

– Posso ajud… – Minhas palavras cessaram quando o Rei apareceu do outro lado do arco.

– Preciso de seus serviços, Informante – Sorriu o Rei, vindo em minha direção.

– Mas é claro, meu senhor – abri ainda mais a porta e fiz uma breve reverência.

O Rei Thereus entrou em passos largos e sentou em uma cadeira de madeira antiga, que rangeu fortemente assim que jogou seu peso por completo.

– Em que posso lhe ajudar, meu senhor? – Sentei na cama de pedra, ansioso para saber qual informação o rei buscava.

– Você não cansa de estar nessa torre o dia inteiro? – Thereus olhou para a janela de pedra aberta, fitando o céu.

– Preciso estar aqui na torre meu Rei, escrevendo informações para o Reinado – apontei para a mesa com pergaminhos abertos e um tinteiro com uma pena de águia dentro.

– Acho bom então começar a se acostumar a ficar um pouco fora dela – sorriu, voltando seus olhos para o teto.

– Como assim, meu senhor Rei? – indaguei, sinceramente assustado com a declaração.

Thereus levantou da cadeira e começou andar pelo quarto observando meus mapas, esboços e tinteiros. Parou em frente a um mapa iniciado dos reinos livres e, apontado para ele, disse:

– Lilian irá partir em uma expedição amanhã e quero você nela. Garanta a segurança dela Informante, preciso de seu conhecimento e astúcia nessa missão. Não falhe, ou não verá mais a luz do sol – Sorriu novamente como se amenizando a ultima colocação, mas eu sabia que o amor que o Rei sentia pela única filha fazia daquela uma perigosa brincadeira, pois mesmo o nobre e bondoso coração de nosso monarca não conhecia limites quando o assunto era Lilian.

– Mas como irei assumir tal responsabilidade? Darius seria o mais indicado para essa proteção – tentei questionar.

– E quem disse que Darius não irá? Apenas quero que você garanta que Lilian não irá fazer uma de suas aventuras loucas durante essa viagem. O Objetivo é simples. Ela precisa seguir até a cidade de Tempestade Rochosa, se apresentar à cidade, seguir os protocolos reais e voltar para casa, sem nenhum desvio ou caçada – Estava agora parado em minha frente.

– Mas meu Rei, Alicia e Helena têm essa função como conselheiras.

Thereus deu uma risada.

– As duas são fiéis a Lilian, jamais irão contra a vontade da minha filha. E além disso, o que te faz pensar que elas não apoiariam uma aventura no meio de um viagem tão burocrática?

  Sabia que pouca escolha tinha no momento, baixei minha cabeça e tentei organizar as idéias. Respirei fundo e falei:

– Está bem, cuidarei da princesa com minha vida, mas preciso que o Senhor permita que eu disponibilize recursos para isso – O rei levantou uma sobrancelha – Preciso que o Sentinela da Escuridão vá comigo.

– Só isso? Certo, vá agora mesmo avisá-lo e preparem-se, pois a comitiva parte amanhã antes do sol amanhecer.

O Rei saiu rapidamente do quarto, fazendo um barulho ensurdecedor nos degraus de pedra da torre.

Peguei um novo pergaminho, escrevi para o Sentinela da Escuridão. Passei poucas informações, com medo que alguém interceptasse a mensagem. Fiz um assovio e na janela apareceu minha águia cinza, pronta para levar a mensagem. Amarrei com uma fita em sua pata o pergaminho.

– Vá Maldur, encontre o sentinela e entregue a mensagem.

Maldur agitou as asas, bateu forte e saiu como uma flecha no campo de batalha. Poucos instantes depois, já era difícil avistá-la no céu. Ajeitei rapidamente minhas roupas, instrumentos mágicos e os pergaminhos em minha mochila de viagem. Assim que o sol se foi, tratei de dormir cedo, pois a viagem iria iniciar em breve. Com a luz fraca da vela, peguei no sono.

No dia seguinte todos estavam prontos no pátio do castelo de Olbai, apenas esperando o último abraço do Rei em sua filha. As belas irmãs, Helena e Alicia, já estavam na carroça real. Lindas iguais as belas flores que afloram na primavera.

Assim que a princesa entrou na carroça, iniciamos nossa viagem até Tempestade Rochosa. Foram cinco longos dias no sol e calor, mas sem muita coisa relevante para relatar.

Já estávamos na entrada da cidade de Tempestade Rochosa, uma bela cidade na encosta do mar, com uma brisa gostosa e refrescante. Entramos na cidade com muitos olhos em nossa direção, as pessoas curiosas com a comitiva real e a presença da Princesa. Fomos direto à pequena fortaleza da cidade onde o anfitrião Duke Onur estava nos esperando com um largo sorriso. Todos os elogios e boas vindas foram dadas diretamente a princesa, como mandavam os protocolos.

Deixei os tratos reais para os encarregados, do assunto, e uma vez instalados, parti para um reconhecimento na cidade onde permaneceríamos. Precisava conhecer o local afim de ter melhor condição de proteger a princesa e evitar suas famosas fugas.

Era uma cidade litorânea com construções baixas, mas com suas janelas viradas para o mar, deixando entrar o ar refrescante no verão. Rapidamente me dei conta que estava perto da montanha intitulada como a montanha da morte e virei-me para o norte. E lá estava, bem próximo, o conjunto de montanhas monstruosas de aspecto assustador. Onde diziam as histórias que o Orcs atravessaram a muitos anos em busca de sua liberdade na terras gélidas do norte.

Senti alguém tocar meu pé. Baixei o olhar e lá estava um ser humanóide com aspecto semelhante a um rato. Era meu grande amigo Sentinela da Escuridão, nunca me deixara na mão, e não seria dessa vez. Sem falar nenhuma palavra, fez um gesto para o seguir. E assim o fiz até o costão que ficava afastado do centro da cidade. Quando lá chegamos, o Sentinela tirou seu capuz e suas orelhas pontudas igual um rato apareceram.

– Demorou para dar um sinal de vida.

– Fácil falar quando é um humano e ninguém te acha estranho, ser um Ratouja é diferente – fez uma careta chateado com a cobrança.

– Conte-me as novidades – Sorri.

– Continuo no mesmo serviço que você me colocou, entregando correspondências secretas pelo reino– Apontou o horizonte.

– Bom ter você por perto. Preciso que fique de olho na cidade enquanto a princesa permanecer aqui. Não devemos demorar, no máximo dois dias até retornarmos. Me avise qualquer coisa fora do comum – Dei um abraço e um tapa nas costas para animar o Sentinela.

– Ficarei, mas espero que tenha alguma boa recompensa por isso, como um bom vinho da adega real ou pelo menos uma garrafa daquele Hidromel dos anões – deu um sorriso com seus dentes amarelos e bafo de esgoto.

– Fique calmo, trouxe uma boa rodela de queijo – escarneci, saindo rapidamente antes que um punho revoltado pudesse encontrar minha cabeça.

Passei pelo porto e cumprimentei um jovem receptor de navios, que abanou sua mão em minha direção, provavelmente feliz com a função que exercia.

O dia passou tão rápido e o sol já dava sinais de ir embora. Procurei uma boa taverna para jantar antes de voltar para a fortaleza. Por mais que estar junto com uma caravana Real me dava o direito de ´participar dos banquetes, é importante ter o contato com o submundo e as pessoas da cidade, coisa que não conseguiria dentro das muralhas. Passei por uma placa com o desenho de um barco e escrito logo abaixo “Porto Seguro”.

Uma taverna limpa e pouco movimentada, tudo que precisava. Sentei em uma mesa próximo a porta de entrada. Não demorou muito e uma mulher tendo aproximadamente a idade de quarenta invernos e pesando uns duzentos quilos aproximou-se.

– O que vai querer? – a roupa estava tão esticada que parecia um mastro de navio como sugeria a placa de entrada.

– Um vinho e alguma carne assada – falei torcendo para ela sair da minha frente, parecia uma assombração.

– No nosso especial do dia  temos carne de porco assado, pode ser? – fez um gesto apontando a cozinha, revelando o cabelo de bárbaro que tinha em baixo do braço.

– Pode – Apenas torcendo para que não fosse um pedaço semelhante a ela assado.

O pedido veio rápido e por sorte, foi entregue por um jovem rapaz. Comi calmamente, apreciando o bom vinho, quando estava no meu terceiro gole a porta abriu rapidamente revelando o Sentinela. Ofereci para sentar, mas logo percebi em seu olhar que era algo ruim o motivo de sua presença.

– Vim o mais rápido que pude. Eu vi no mar um navio bárbaro se aproximando e parecia ter Orcs tripulando ele – Se tinha uma coisa que gostava no Sentinela, era sua habilidade de ver coisas no escuro em uma distância além de qualquer humano.

Deixei três peças de ouro em cima da mesa, mais que o necessário para pagar e corri de volta para a fortaleza. Falei para o Sentinela acompanhar o navio. Não deu tempo, já se escutavam alguns gritos vindo do porto e o alarme da cidade fora acionado. Soldados, Lanceiros e Escudeiros estavam saindo em marcha da fortaleza em direção ao porto, seguidos por um homem encapuzado, provavelmente era Darius.

Entrei na fortaleza como uma flecha, procurei pela princesa Lilian. Após alguma tempo, na sala de descanso encontrei Helena e Alicia.

– Senhoritas, onde está Lilian? – meus olhos corriam de um lado a outro tentando captar a imagem da Princesa.

Não houve tempo para resposta, pois vi Darius descer as escadas da fortaleza com sua armadura de batalha completa. Um ar gélido tomou conta do meu corpo. O homem encapuzado não era Darius, então só podia ser…

– PRINCESA LILIAN – Gritei correndo em direção a batalha desesperado.

Montei meu cavalo e me embrenhei em meio ao caos. Guerreiros gritavam proximos ao Píer enquanto os invasores batiam em retirada, e muitos se aglomeravam em volta a alguém ferido. Estremeci e pude constatar que meus temores estavam corretos.

Era Lilian.

A princesa estava ferida na beira do porto, olhando o navio que já navegava além das ondas,e buscando suas últimas forças gritou algo que não pude discenir, antes de tombar desmaiada, sendo amparada e tratada imediatamente pelo Duque, que evocava alguma magia de cura.

Desci do cavalo quase rolando para dentro do mar, tentei me aproximar da Princesa, mas Duke me conteve, garantindo que ficaria tudo bem. No escuro não conseguia mais avistar nenhum navio.

Lilian foi levada para a fortaleza. Permaneci no porto, com um ódio mortal de não tê-la reconhecido quando estava indo para a batalha. Só pensava que meus dias de castelo e torre acabariam nesse exato momento, jamais seria perdoado pelo Rei Thereus, mesmo com Darius me garantindo que nada eu poderia ter feito para evitar aquele desfecho.

Fiquei um breve tempo olhando para o mar do porto. Foi quando avistei o corpo do jovem receptor de barcos brutalmente assassinado por aqueles bárbaros. Nesse exato momento jurei me vingar do responsável por isso. Usarei todo meu conhecimento para chegar no autor dessa monstruosidade e vingar tantos inocentes mortos, que quase incluíram em seus números nossa amada Princesa.

Em breve retornaremos a Olbai, e certamente uma grande guerra se aproxima…

 

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