O reino o qual vivo é localizado em uma parte isolada do continente, com suas limitações territoriais sendo traçadas por mares e montanhas, onde o Sol só brilha no período da manhã, pois a tarde é coberta pelas sombras das montanhas. Meu capitão, preparava sua tripulação para um saque em uma cidade como de costume.

Eu resolvi escrever esses fatos ocorridos por menosprezarem minha raça. Ser um Goblin não é fácil, todos nos julgam, dizem que somos inferiores, em todos os sentidos. Acredito que a maioria seja, mas eu não. Me chamam de Goblin Saqueador, por ser astuto e rápido, e sou um dos poucos que sabem ler e escrever nessa insana tripulação.

Estávamos todos no porto bebendo e festejando. Iríamos partir para mais um saque, o que com certeza nos dava alegria. Mais tesouros para gastarmos com nossas amadas bebidas. Era tudo uma grande aventura, mas gostávamos disso. Nascemos para isso, e vivemos disso.
Chamei toda a tripulação para carregar o navio. Precisávamos acelerar, o Sol já nascera e precisávamos partir em breve. Aproveitávamos o Sol do amanhecer para realizar as tarefas, pois após o horário do almoço, as montanhas cobriam a claridade e aquele vento frio tomava conta de nossas almas.

Observei uma caixa perdida, peguei e levei para dentro do navio. Ela continha armas e estava muito pesada, com dificuldades consegui levar até o local onde encontravam-se as outras.

– Capitão Sark, no que mais posso ajudar o senhor? – falei ao deixar minha caixa no convés.

O Orc, de tamanho elevado para sua raça, com seu ar de arrogância e força de touro, olhava para meu ser, que confesso, fiquei um pouco assustado no momento.

– Chame todos a bordo, seu verme, e vamos zarpar! – Ordenou com seu dedo apontando para o porto, onde outros Orcs e Goblins esperavam.

Corri como nunca, aproximei-me do grupo que esperava e ordenei para que se deslocassem para dentro do navio. Todos sem questionar, embarcaram com seus equipamentos,  já ocupando seus lugares de forma habitual.

– Vamos seus inúteis, coloquem esse navio em movimento. Vamos, Vamos! – Gritava Sark de seu leme.

Em poucos instantes, o navio deslizava mar adentro, enfrentando algumas ondas de rebentação. A viagem era curta, pois a cidade que fora indicada a Sark para realizar o saque era a apenas meio dia de viagem.

O capitão não conhecia essa cidade, nem imaginava que ela não era uma cidade sem reino como lhe fora dito. Abriu o mapa e marcou exatamente o ponto o qual iria parar no final do dia, próximo o anoitecer, evitando ser visto.

Aquele dia foi o de costume para cada um de nós no convés. Limpar, lavar, arrumar as velas e verificar se havia algum perigo no perímetro. Alguns momentos em que o Capitão dava uma relaxada para comer algo, aproveitava para falar com meus companheiros de guerra.

– O seu marujo covarde, pára de esfregar esse chão um pouco – olhei sorridente para ele.

– Fácil você falar seu nojento, sabe ler e escrever, aí ganha regalias com o capitão – O Covarde falava comigo olhando para o capitão. Sempre temendo alguma reação inesperada.

– Não arranje desculpas por sua covardia.

– Sai de perto, sai. O Capitão pode nos ver conversando.

Afastei-me do Marujo Covarde, rumei para perto do capitão. Não falei nada, apenas ficava próximo para caso ele precisasse de algo.

A viajem até aquele ponto fora tranqüila, sem maiores problemas. O Sol já começava a dar sinais de sumir e Sark gritou para sua tripulação:

– Recolher velas, vamos reduzir nossa velocidade – olhando o horizonte. Por um tempo, o navio ficou deslizando, em pouca velocidade e finalmente o sol estava partindo.

As tochas da cidade estavam sendo acesas pouco a pouco. E logo começaria a bebedeira e todos, ou quase todos, estariam desatentos e relaxados. Com isso, o Capitão conduziu o navio em direção ao porto da cidade.

A aproximação foi lenta e cuidadosa. Por melhor navegador que pudesse ser o nosso Capitão, cada ataque e saque era diferente um do outro. Ao se aproximar o suficiente do porto, o meu primo, o mensageiro, jogou a corda para o receptor do lado de fora.

O rapaz jovem que agarrou a corda ficou desconfiado, pois o navio estava muito escuro e não conseguiu identificar quem poderia ter jogado. Mas, mesmo com sua desconfiança, amarrou a corda no porto e ajustou a tábua de deslocamento.

Ele subiu a bordo para conversar com o Capitão.

– Capitão, favor se apresente – Dizia o jovem com sua voz rouca e trêmula.

Uns passos foram ouvidos no convés e apareceu o Capitão Sark, com seu rosto sanguinolento e sedento por morte.

– Sim meu nobre rapaz – Falou com um sorriso no canto da boca.

O jovem, ao perceber que esse navio não era de tripulação comum ou de mercadores, tentou dar meia volta e correr até a terra firme. Infelizmente, o mesmo não conhecia as habilidades de Sark que em um piscar de olhos, pegou uma lança que estava no canto do convés e arremessou eu um dos pés do jovem.

Gritos de dor surgiram do jovem que tentava retirar a lança desesperadamente, mas sem sucesso. Fiquei até com dó deste verme por uns instante, mas isso passou rapidamente. Lembrei que era um humano maldito que sempre menosprezara por gerações a minha família. Pois nós Goblins consideramos todos da raça como uma única família.

O Capitão se aproximou e pisou ao lado da ferida, fazendo os gritos aumentarem de volume.

– Grite sua menina, grite e avise que estamos aqui, pois não gostamos de surpresas – Disse Sark sacando seu machado de guerra.

O sistema de segurança da cidade logo fora posto a prova, sinos tocavam dentro da cidade, naquele instante percebemos que ela não era tão pequena, como o irmão maldito do Capitão havia lhe dito, mas não nos assustamos com o tamanho e continuamos a caminhar pelas ruas, incendiávamos as casas e matávamos todos aqueles que tentavam se defender ou fugir.

Nós, os Goblins, tínhamos a tarefa de pegar todo o tesouro e carregar para dentro do navio enquanto os Orcs avançavam cada vez mais para dentro da cidade. Eu era a unica exceção, pis sempre acompanhava o Capitão em batalhas iguais como essas, para registrar suas glórias depois.

Uma corneta foi soprada ao longe e juntamente com o som, apareceram alguns guerreiros com uma Flecha desenhada no peitoral de suas armaduras. logo atrás deles, surgia um outro guerreiro com um belo arco na mão.

Os guerreiros correram desesperados para cima dos Orcs, e espadas e machados fizeram um som ensurdecedor. Lâminas giravam por cima de algumas cabeças e desciam em um baque de armadura. Espadas eram estocadas em Orcs que jorravam sangue em seus agressores. Muitas flechas voavam por cima da linha de defesa. Algo estava muito errado.

Muitos Orcs estavam tombando, gemendo de dor. Sark observara o motivo e logo percebeu que o arqueiro líder estava reduzindo seu exército. Certamente nesse ritmo, os arqueiros iriam dizimar sua tripulação antes mesmo de chegarem ao navio novamente.

– Por aqui capitão, você irá conseguir chegar no lider dos arqueiros – falei, apontando um caminho livre.

Seus olhos atentos correram e acharam o espaço para passar entre as casas. Abaixou-se rapidamente, correu por trás da fileira de Orcs até chegar no espaço avistado anteriormente e ali estava, logo a sua frente o arqueiro que reduzia suas tropas. Não pensou duas vezes, girou seu machado ferozmente de baixo para cima até chegar no alvo, atingindo o ombro.

O arqueiro atingido se ajoelhou, baixou sua cabeça deixando escorregar o elmo. Um silêncio pareceu tomar conta da batalha, todos viram, era uma Jovem mulher com seu ombro cortado pela lâmina assassina do Capitão. Com um brasão real pendurado em seu pescoço, foi possível perceber que era uma Princesa, sim, era a Princesa Lilian, herdeira dos reinos livres!
No mesmo instante Sark gritou para seus subordinados:

– Voltem, Voltem para o navio.

Tudo o que Sark não queria era um combate com alguém da realeza inimiga. Sabia que a Princesa era a única filha do Rei Thereus e que esse ataque não passaria despercebido.

A volta para o navio foi confusa, os Goblins e Orcs não entendiam o motivo da recuada, mas seguiram meus gritos de aviso. O navio rapidamente retomou sua navegação, quando ouvimos uma voz feminina vinda em alto e bom som do porto dirigida a nosso Capitão.

– O Seu Reino que antes era Esquecido irá pagar por esse ataque e todos os inocentes que hoje pereceram! – Gritava a Princesa, pressionando seu corte com as mãos, pouco antes antes de desabar pela perda de sangue.

O capitão fingiu não ouvir e continuou olhando o horizonte escuro da noite nublada, conduzindo seu navio de volta as terras o qual conhecia muito bem.

A volta ao nosso porto foi silenciosa, eu podia ouvir apenas pequenos murmurar do Capitão que expressava seus pensamentos.

“Você quem irá pagar por isso Yurk,  irmão traidor” – grunhiu Sark com seus olhos flamejando de raiva pela traição de seu irmão. – “Ele sabia que a princesa do reino inimigo estaria ali”.
Com esses pensamentos, O Capitão nos levou de volta para casa.

Uma grande guerra estava por começar.

 

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