Quando nossos pais chegaram na terra do ferro, não imaginavam o quanto era rica em pedras preciosas e minérios essências para belas construções. Por mais que nossa antiga terra fosse próspera, vivíamos juntamente com os humanos e aquela raça preguiçosa de orelhas pontudas. A terra de ferro é o que sonhávamos e imaginávamos.

Não sou muito religioso, por mais que mantenha um grande respeito por nosso amado Deus Kroc. Fui treinado para estar na primeira linha quando nosso povo está em batalha. Meu nome é Drark, mas sou conhecido como “Bala de Canhão”. Quando nossos inimigos se aproximam, pulo em direção deles sem medo.

Hoje recebemos a convocação para comparecermos em Rurnaron, cidade do poderoso Durgosh. Um grande herói que é protegido por nosso amado Deus. Muitos dizem que ele conversa com o próprio Kroc cara a cara nas montanhas mais altas. Não acredito muito, mas quem seria o corajoso a falar isso para Durgosh? Eu que não seria.

Antes de começar minha caminhada da Fortaleza real, ao qual sirvo a nosso amado rei Gurdorin, até Rurnaron, resolvi passar na taberna o qual possuía o melhor hidromel de todos, a Taberna do Escudo.

A Taberna do Escudo fica fora da área de proteção da fortaleza, considerado por alguns até perigosa, pois qualquer criatura tem acesso para ir e beber. Por mais que a maioria da região seja da forte raça dos anões, não sabemos a surpresa que podemos encontrar do outro lado da porta de acesso.

Estava um silêncio na Taberna, o horário ainda não era avançado, nem se quer se aproximara da hora de almoçar. Minha mesa redonda no canto direito, perto da lareira apagada, estava vazia como de costume. Poucos gostavam de sentar nela, pois o calor era intenso na maior parte do ano e lareira e calor não combinam. Eu gostava de sentar lá, pois o calor me dá vontade de beber cada vez mais hidromel.

Sentei na cadeira colocando meu equipamento no lado esquerdo e deixando o direito livre para qualquer movimentação necessária em caso de emergência. Olhei para o balcão e lá estava a bela Torbera, filha de Roard, barba cinzenta. Com sua jovem idade de 60 anos e sua altura magistral de um metro e vinte centímetros, sorriu e veio em minha direção.

– Olá Drark, o que deseja hoje? – disse com uma voz doce.

– Qual seria o cardápio do dia, bela Torbera?

– Pão fresco, queijo de Vartur e porco assado – falou, um pouco enrusbecida com meu elogio.

– Acho que um bom porco assado e pão fresco irão me satisfazer – falei coçando minha barba.

– E seu hidromel, irá querer como sempre?

– Além de linda é esperta. Graças a barba de Kroc, você trabalha nesta taberna – Soltei uma boa gargalhada.

Timidamente, Torbera pediu licença e retirou-se para passar o pedido a cozinha, enquanto esperava ansioso por aquela refeição.

A porta da Taverna abriu-se e por ela entrou um anão viajante, sem serviços a coroa, o qual escolhia seu próprio destino. Era meu amigo de muitas batalhas, Ambor.

– Sabia que estaria aqui – Gritou Ambor sorridente, vindo em minha direção.

– Sente-se comigo, velho amigo, e venha desfrutar da refeição maravilhosa que Torbera irá nos trazer. E claro, hidromel para acalmar os nervos.

Meu grande amigo Ambor me abraçou igual um urso solitário. Com toda empolgação, sentou na cadeira logo a minha frente.

– Me conte, o que lhe trouxe aqui? – Perguntei desconfiado, pois faziam anos que não nos encontrávamos.

– Vim saber mais sobre essa visita que irão fazer até Rurnaron – falou em tom de aventureiro.

– Pouco sabemos o motivo de termos que aparecer em Rurnaron, até por que ela sempre foi uma cidade protegida e bem cuidada por Durgosh.

– Mas até onde sei, você não irá realmente a Rurnaron.

– Aonde mais poderei estar indo? – falei, curioso com essa nova informação.

– Segundo o que ouvi falar, você apenas irá pegar um Navio e rumar para o norte, para a antiga terra.

Soltei uma gargalhada, não acreditando no que estava ouvindo. Torbera trouxe o pedido, com uma caneca extra de hidromel. Parti o pedaço de pão no meio, mastigando com uma vontade de lobo. Tomei um bom gole de hidromel e ajeitei-me melhor na cadeira. – Diga o motivo pelo qual iríamos voltar a terra de nossos pais? – Falei incrédulo.

Ambor percebera que eu não estava acreditando muito nessa história. Ele pegou um pergaminho com um selo já aberto. Entregou-me.

– Leia você mesmo a carta que recebi de nosso amigo Bornara.

Bornara era um amigo nosso de infância. Diferente de Ambor e eu, Bornara decidira seguir uma vida de dedicação aos deuses. Fora ainda jovem para o templo de Kroc na cidade de Rurnaron, servindo a Durgosh.

Abri cuidadosamente o pergaminho e comecei a lê-lo:

” Caro Ambor,
Como você está meu amigo? E suas viagens ao longo dos mares e continentes? E por raios de Kroc, você ainda não decidiu dedicar seu tempo em coisas mais importantes além do dinheiro? Espero que crie juízo logo. Estou preocupado com a viagem o qual teremos que realizar em breve. Algo parece estar acontecendo nas terras de nossos pais. Durgosh foi ao monte orar e quando retornou, estava com um semblante preocupado e mencionou sobre a viagem. Venha me visitar para conversarmos mais e sabermos como andam as coisas fora de nossa terra.
Forte Abraço e que as benção de Kroc estejam com você Bornara.”

Enrolei o pergaminho e olhei sério para Ambor.

– Não parece uma boa coisa.

– Com certeza não é, caro Drark – Falou Ambor, pegando sua caneca de hidromel e virando de uma vez na boca, deixando o líquido escorrer na barba.

Peguei meu saco de moedas, deixei duas peças de ouro em cima da mesa e levantei pegando meu equipamento.

– Vamos agora mesmo Ambor, temos que verificar o que está acontecendo.

– É assim que gosto! – falou empolgado.

Saímos rapidamente da Taberna, e mais tarde lembrei que não me despedira de Torbera. Haveria tempo para desculpas em um outro momento.

A viagem foi cansativa, dois dias de cavalgada até Rurnaron. A cidade era magnífica, com aparência forte igual de uma rocha, mas com um ar abençoado pela brisa marinha. Sem demoras, fomos direto para o templo de Kroc.

Uma edificação majestosa, com uma estátua linda em frente do templo de um Anão segurando um machado envolto por raios, o Simbolo máximo de Kroc. Antes de entrarmos no templo, fizemos uma reverência a estátua, como era o costume de nosso povo sempre que passava a algo que lembrasse o nosso Deus.

Dentro doTemplo, passamos ao lado do chafariz, subindo as escada de bronze, chegamos ao centro do Templo.  Muitos estavam orando, mas de longe reconheci Bornara no canto esquerdo do altar. Ele percebera nossa chegada e dirigiu-se rapidamente em nossa direção. Seu sorriso era percebido a distância. Abraçou eu e Ambor ao mesmo tempo.

– Como é bom ver vocês aqui – Falou em nossos ouvidos.

Sabia o motivo pelo qual estávamos ali. Nos acompanhou até sua residência que ficava ao lado templo e convidou para sentarmos em suas cadeiras de madeira macia.

– O que está acontecendo? – Não consegui me conter, estava agonia com a história.

– Quer algo para beber? – Falou Bornara, ignorando meu questionamento.

– Eu aceito um hidromel – Ambor disse sabendo que Bornara iria falar com calma, não importando minha pressa e curiosidade.

Respirei fundo e aceitei um hidromel também. Bebemos os três juntos, lembramos de histórias engraçadas do passado. Inclusive do dia em que Ambor jogara uma tocha acesa em uma aranha grande dormindo, achando que era apenas madeira pronta para fazer fogueira.

Após algum tempo de conversa, Bornara começou a contar o que estava nos atormentando internamente.

– Recebemos uma mensagem do todo poderoso e magnífico Kroc através de Durgosh – Bornara me olhou assim que falou, sabia o qual era descrente dessa possibilidade.

– E o que falava a mensagem? – Falei tentando amenizar a desconfiança.

– Kroc nos pediu para embarcarmos em nosso navio e que fossemos para o norte, para a terra de nossos pais. Algo está prestes a acontecer. Alguma desgraça que poderá comprometer o equilíbrio entre os povos. Não sabemos ao certo o que é, mas Durgosh mudou, está com um semblante sério e ele mesmo irá liderar essa viagem. Convocou o campeão de batalha Roard, Barba Cinzenta, para ir junto – Parou nesse ponto, sabendo que iria nos chocar com essa última parte da informação.

– Roard? Pai de Torbera? Pela barba de Kroc, isso é inacreditável. Para Roard ser chamado, a coisa que está para acontecer é além de nossas capacidades! – Falou Ambor assustado.

– E quando iremos partir? – questionei, incrédulo nos fatos atuais.

– Descansem bem meus amigos, pois a viagem será logo após o amanhecer de amanhã – explicou Bornara, fazendo um gesto para nós se acalmarmos.

– Nada bom, isso não está cheirando nada bem – Ambor estava preocupado com a situação.

– A última informação que consegui tirar de Durgosh é que os Elfos e um pouco de seus guerreiros estão navegando para o norte também – Bornara falava confuso.

Cuspi o último gole que estava dando do hidromel no chão, dando um banho em Ambor que estava no meu lado esquerdo, lado que estava com a cabeça virada.

– Aqueles vermes estarão lá? É por isso que teremos problemas – Estava irritado com essa última notícia.

– Calma Drark, parece que o problema que está por vir não é de responsabilidade dos selvagens – Bornara falava usando o termo o qual a raça élfica era conhecida.

– Duvido muito que não seja – repliquei.

– Bom, só saberemos disso quando chegarmos lá – comentou Ambor.

– Ótima observação, meu grande amigo aventureiro – Bornara dera um sorriso para Ambor.

– Então vamos descansar, preparar nosso equipamento e amanhã estaremos navegando por este mar a fora – Bornara apontava as camas extras em sua casa.

Não trocamos mais nenhuma palavra depois desse momento. Ajeitei o meu equipamento. Tomei um banho prolongado, tirando o pó e sujeira da viagem. Fui dormir cedo. Ao menos achava que iria dormir. Deitado com os olhos fitos no teto da casa de pedra de Bornara, fiquei a noite em claro, com os pensamentos viajando entre a terra e o mar.

A janela estava aberta, para refrescar a casa. Olhei por ela, ao longe avistei uma fraca luz surgindo no céu, confirmando o que temia. Estava amanhecendo e não havia dormido nada. A viagem iria começar.

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