O castelo de Olbai estava agitado. Sacerdotisas passavam de um lado ao outro pelos corredores orando à Kindar e à seu filho Furior. A Rainha Lilian entrara em trabalho de parto, e logo saberíamos se iria nascer o herdeiro real ou uma princesa para acompanhar a rainha em seus afazeres. Independente de qual sexo fosse, sua chegada era muito esperada.

Mas nem tudo estava bem. A Rainha tremia, e sangrava excessivamente. Os olhares que as sacerdotisas trocavam não era um bom sinal. Parecia que tudo estava dando errado, a criança não estava querendo vir ao mundo e Lilian perdia, pouco a pouco, suas forças. O rei fora chamado para entrar no quarto. E somente em casos extremos um rei participava do nascimento de seus filhos.

Thereus entrou apressado no quarto e fechou o semblante ao ver todo aquele sangue. Levantou a cabeça rapidamente procurando a criança, temia que o bebê tivesse nascido morto, mas não era esse o principal problema. Suzan, a sacerdotisa mais velha, aproximou-se do rei.

– Senhor, Lilian está perdendo muito sangue e precisamos agir rápido – ela respirou fundo antes de continuar – ou temo que possamos perder a rainha.

O rei estava prestes a falar algo, mas ouviu uma voz fraca. Era a rainha falando. Thereus aproximou-se, e pegou na mão de sua amada esposa. Companheira e sua amiga ela vinha sendo até aquele momento. Fez um leve carinho e terminou com um beijo na testa.

– Fale, meu amor – suas palavras eram trêmulas, temendo muito o que poderia estar por vir.

Os olhos azuis da rainha estavam cheios de lágrimas. Piscou suavemente e uma lágrima escorreu em seu rosto até o lençol encharcado. Com uma voz serena e forçada ela disse:

– Quero que nosso bebê venha a esse mundo – Parou por um instante, retomou o fôlego e prosseguiu – eu já vivi o que precisava para conhecer o melhor homem de todos.

– Não diga isso –  o rei agora chorava – não diga.

– Senhor, rápido, precisamos de uma decisão ou, perderemos ambos – Suzan estava agitada.

– Confie em mim – mais uma lágrima escorreu da rainha – nos encontraremos um dia novamente, e viveremos para sempre.

– Não… – o rei ajoelhou-se, chorando como uma criança.

– Cuide de nosso bebê – sua mão foi perdendo força – estarei esperando por você.

Abalado, sem rumo, o rei precisava tomar a decisão, e sabia que a única esperança era salvar o bebê. Sabia que era tolice tentar salvar sua amada esposa. Ela já partira.

– Salvem o bebê, ela se foi – o rei levantou.

Ele olhou fundo nos olhos de sua amada mulher. Ela não estava mais lá, não expressava mais sentimento. Abaixou sua cabeça até o ouvido de Lilian e sussurrou:

– Espere-me, eu irei até você um dia. Você será a única na minha vida.

Beijou levemente os lábios molhados pelas lágrimas que haviam escorrido. Levou sua mão nos olhos da rainha e os fechou suavemente. Virou-se apressadamente, foi em direção à porta, e quando estava abrindo para sair, ouviu o grito de uma bebê. Abaixou sua cabeça, limpando suas últimas lágrimas.

– É uma menina, meu rei – dizia Suzan, tentando animá-lo – qual será seu nome?

– Os deuses tiraram-me uma Lilian, mas me concedem outra – e nada mais disse, saindo  apressadamente pelos corredores.

Os anos seguintes foram tristes no castelo de Olbai. Lilian, a princesa, crescia rapidamente e mostrava sua beleza. Era uma cópia de sua mãe, cabelos louros e lisos, olhos azuis profundos, e sempre com ar de gentileza, o que fazia Thereus afastar-se um pouco, pois a cada vez que via sua filha, lembrava de sua esposa.

Quando Lilian estava passando a idade de criança, o rei decidiu treinar a princesa. Chamou o mestre do arco, Gartur. Com certeza ele era um mestre, segurava o arco com uma firmeza incrível. Puxar a corda e soltar a mesma, era como caminhar, para o mestre. E assim Lilian iniciou seu treinamento intensivo no arco.

Para surpresa do Rei, Lilian estava indo muito bem, e em poucos dias já estava atirando com uma precisão fora do normal. Ficou feliz em ter acertado em qual arte ensinar sua filha.

– Lilian, você está inclinando um pouco demais seu corpo, deixe-o em uma postura mais reta e estique mais esse braço – dizia Gartur apontando para a coluna da princesa.

A princesa fez exatamente conforme orientado, puxou levemente a corda com sua mão direita. Sentiu a pena tocar levemente em sua orelha – “o ponto ideal” – pensou antes de abrir um sorriso maroto. Olhou fixamente o alvo a trinta metros, calculou o ângulo que a flecha faria e por instinto levantou um pouco mais. Soltou a flecha, fez o arco perfeito que havia calculado e bem no peito de um boneco de pano o projétil entrou.

– Isso – falou alegremente, abraçando seu mestre.

E assim mais alguns anos se passaram. Lilian já estava entrando na fase adulta quando Gartur trouxe de presente um arco longo com sua base trabalhada. O arco era quase da altura da princesa, e demonstrava ser uma arma bem resistente. A jovem abraçou fortemente seu mestre e agradeceu. O rei, que passava no local, viu a cena, e seu coração encheu-se de ciúmes. Mandou, então, chamar Gartur.

– Entre – disse Thereus, após ouvir as batidas na porta.

– Mandou me chamar, senhor? – Gartur fez uma reverência.

– Sim – levantou o rei e apontou para um saco de peças de ouro sobre a mesa – é um prazer informar que o treinamento com Lilian acabou e aí está seu pagamento por todo esse tempo.

– Mas ainda ela tem muito a aprender, meu rei – dizia o mestre, confuso, balançando a cabeça.

– Acho que é o suficiente, e insisto que leve sua recompensa.

– Não fiz por dinheiro – Gartur fechou o semblante irritado – Eu fiz pelo respeito que tinha ao senhor.

Antes que o rei pudesse exaltar-se ou mesmo falar algo, o mestre saiu rapidamente do escritório. Encontrou Lilian no caminho, que cumprimentou seu professor, mas ele nada fez a não ser continuar andando.

A princesa, desconfiada que algo havia acontecido, foi rapidamente até seu pai, e lá obteve a resposta à sua desconfiança. O rei contara que Gartur partira e não mais voltaria. A Princesa saiu correndo atrás de seu mestre para dar adeus. Não conseguiu, o mesmo sumira na multidão da cidade, e sua tristeza foi grande aquele dia.

O mestre do arco continuou sua jornada ao norte, seguindo o caminho para as Montanhas da Morte, divisa da terra do Rei Thereus com o povo esquecido por muito tempo.

Na realidade, Gartur estava dirigindo-se para a cidade dos Pandawans, onde viviam os mais sábios humanóides desse planeta. Buscava orientação e conselhos, e lá era o melhor lugar para obtê-los. A caminhada fora longa, longos dias, por entre as florestas, até achar a estrada do destino, que leva de oeste a leste do continente. Rumou a leste mais alguns dias, passando pelo Rio Gélido. Após dois dias da ponte, que era a ligação que passava por cima do Rio Gélido, Gartur caminhou mais um dia a norte até chegar na encosta das Montanhas da Morte.

Após alguns dias procurando a trilha que dava acesso à cidade dos Pandawans, finalmente encontrou uma placa que dizia: “A sabedoria não pode ser alcançada por aqueles que temem a morte”. Olhou à direita da placa, e viu uma trilha que subia entre as Montanhas e sumia. Respirou fundo e iniciou sua última jornada.

O frio era intenso, o vento gélido parecia rasgar sua pele. Sua roupa não parecia aquecer, só era um peso que não fazia sentido ter. Dormir era impossível, a sensação era que se fechasse os olhos, não abriria novamente. Vozes eram ouvidas entre as montanhas, ou era apenas o vento? isso não importava, pois acreditava que iria morrer ali mesmo, no meio de uma montanha na qual nem podia-se encostar, ou congelaria.

Continuou com fome por mais um dia inteiro, sua ração de viagem havia chegado ao fim. A água não escorria do cantil, estava congelada. Com raiva, jogou o cantil contra a parede, um grande erro, fez com que uma pequena pedra rolasse e cortasse sua testa com o impacto. Sangue escorreu em seu rosto, ardia intensamente. Caminhou mais alguns passos e caiu de joelhos, frustrado. Parecia estar tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Concentrou-se e buscou seu último suspiro de força, levantou-se e virou à direita, seguindo a trilha que contornava a montanha. Para sua surpresa, o frio parou, o ar era leve e a temperatura amena. Estava abaixo de um portal com as seguintes palavras: “VIDA e MORTE”.

Não deu tempo de comemorar, sua energia havia-se esgotado. Desabou abaixo do portal e seus olhos fecharam-se. O silêncio tomou conta do seu ser, só conseguiu ouvir uma voz ao fundo que dizia:

– Descanse agora, Mestre Gartur, você chegou ao seu destino.

Abriu os olhos assustado, sentando rapidamente. Estava em uma cama limpa, e com roupas leves, seu corpo estava cheiroso e sem dores. Parecia que estava em outro mundo, o aroma era bom e podia sentir ao fundo pães frescos após serem assados. Levantou-se e saiu do quarto, caminhou por um corredor longo e chegou em uma cozinha grande, com uma mesa redonda ao centro. Em cima estavam os pães dos quais sentira o cheiro, havia um único banco para sentar, e estava vazio. Rapidamente sentou-se e começou a comer os pães e lascas de queijo que estavam ao lado. Uma caneca estava cheia com algum líquido saboroso e que dava uma satisfação imensa.

Após longos minutos alimentando-se, levantou e foi para fora da cozinha, através de um arco, que estava bem no lugar onde deveria ser uma porta. A paisagem era linda, uma cachoeira ao fundo, com árvores vivas. No meio da cachoeira tinha um pico de pedra muito alto e parecia que alguém estava sentado meditando. Foi até a beira da cachoeira e antes que pudesse falar, a criatura que lá estava antecipou-se:

– Gartur, bem vindo à cidade dos cinco sábios.

Estava sentado meditando e antes que piscasse, já estava em pé, em uma posição ereta e de respeito. Parecia ser um homem, mas com barbas longas e cabelo amarrado acima da cabeça. Seu rosto lembrava muito um panda ancião. Com certeza ele era um sábio Pandawan.

– Obrigado senhor, mas quem você é? – Falou Gartur fazendo uma reverência.

– Sou aquele que mantém tudo ao meu redor em equilíbrio – Pulou de onde estava e caiu dez metros como fosse descer apenas um degrau – Mestre Miurka.

Gartur não sabia o que falar, ficou abismado com tamanha destreza. Buscou calcular suas palavras para não ofender o mestre à sua frente.

– Por que veio até nós? – Falou Miurka com seus braços cruzados.

– Fui mandado embora do Castelo Olbai, e procuro encontrar meu caminho, que não mais pertence ao rei ou qualquer uma ali – o embargo e magoa evidentes na voz.

– Cuidado ao falar do Rei, ele não se tornou um rei por acaso – Levantou uma sobrancelha – e os caminhos mudam devido às ações que  realizamos.

– Está querendo dizer que fiz algo errado? – demonstrava desapontamento.

– Sim ou não, isso depende de quem deseja enganar – sua voz era suave – você, ou o rei.

– Desculpe por minha arrogância, mas vim atrás de treinamento – apontou para uma área limpa com um chão coberto de areia grossa, onde haviam muitas marcas de pés – soube que não existe ninguém mais forte que vocês.

– Treinar? E por que acha que devo fazer isso? – abaixou os braços.

– Pois vim até vocês e sobrevivi, talvez com alguma ajuda sua– mostrava-se ansioso ao falar – mas estou aqui.

– Caminhar e sobreviver até aqui é fácil – Apontou para um portal que estava ao longe – difícil é convencer-me que é capaz de merecer um treinamento.

Essas últimas palavras foram duras, andar até ali não fora nada fácil,  convencer o mestre a treiná-lo parecia impossivel. Uma pontada de dúvida surgiu em sua mente. Seria ele capaz de tornar-se um mestre como Miurka? Seus pensamentos foram esquecidos quando o Pandawan tornou a falar.

– A tua determinação te provará, acerte-me um golpe, e eu te treinarei.

As palavras nem terminaram e os pulsos de Gartur já estavam em direção ao mestre. Quando estava quase tocando o peito, Miurka desviou para o lado com as mãos nas costas. Não conformado, girou seu pé em direção ao rosto do mestre, que abaixou-se suavemente deixando o pé passar no vazio.

– Como pode ser tão rápido? – resmungou severamente.

– Eu não luto com os músculos – Miurka esticou a mão aberta, batendo na nuca de Gartur, que caiu para frente – mas com minha alma.

O tapa parecia ter sido tão leve, mas estava doendo muito. Instintivamente, sua mão direita ficou segurando e massageando onde o tapa fora dado. Com certeza apareceria um hematoma em breve. Isso não importava, tinha que acertar um golpe no mestre. Incansavelmente começou a dar socos e chutes de todos os modos, sem sucesso algum. Isso o estava deixando cansado, esgotando suas forças.

– Pare – Falou o Pandawan – você ficará sua vida inteira tentando acertar-me e não irá conseguir.

– Então por que me pediu para tentar? – falou sem fôlego.

– Para saber se tinha coragem – abriu um leve sorriso – agora vá, descanse por hoje e amanhã iniciaremos seu treinamento.

E assim iniciou-se o treinamento de Gartur na arte de lutar sem armas. Fez um juramento de nunca mais tocar em arcos em sua vida.  Seu treinamento foi longo e exaustivo, aprendeu a lutar usando apenas seu corpo, e aos poucos começou a sentir sua alma e usá-la com mais frequência que os músculos.

Alguns anos se passaram, e seu treinamento chegava ao fim, sentia-se um novo homem. Sua cabeça agora era raspada e sua roupa leve, permitindo realizar todos os movimentos. A alimentação era controlada e sua sede escassa, não sentia medo e nem alegria. Sua vontade de se vingar de tudo e de todos sumira. E em seu último dia na cidade dos cinco sábios, Miurka o chamou em seu santuário.

– Você sabiamente nunca perguntou onde estavam os outros quatro sábios, mas hoje irá saber – apontou uma almofada ao chão, logo à frente dele, para Gartur sentar.

– Essa cidade não pode ser ocupada por mais de um sábio por vez – pegou um incenso que estava acabando e acendeu um outro – ou acaba acontecendo como dois incensos de cheiros diferentes acesos. Ambos são bons, mas acabam misturando-se e confundindo o ambiente.

Gartur mostrou compreensão ao ensinamento, só não sabia onde essa conversa poderia chegar. Sabia que seu treinamento estava no fim, mas qual era o sentido de se comparar com um incenso?

– Você é muito bom Gartur, qualificado, e aprendeu rapidamente. Considere-se um sábio de hoje em diante, mas enquanto o incenso mais velho ainda estiver aceso, você não poderá aqui habitar.

Uma reverência com a cabeça foi executada por Gartur. Sentiu-se extremamente satisfeito com o elogio recebido por seu mestre. Sua dúvida agora era o caminho a tomar. Não poderia voltar para Olbai e menos ainda ir para o norte, junto com os povos esquecidos, os Elfos selvagens jamais o aceitariam. Os anões são extremamente fechados, cuidam e preocupam-se somente com seu povo.

Mestre Miurka interferiu nos seus pensamentos:

– Para o sul, além de Olbai e do mar, vá para a Ruína de Lortrus. Uma cidade antiga, destruída pela cobiça do homem e hoje esquecida. Lá irá encontrar outros iguais a você, que lutam com a alma no lugar do físico – pegou o incenso mais novo e apagou na areia, guardou cuidadosamente no armário – junte todos, estão perdidos, sem um líder, e ajude todos os reinos a combaterem o mal maior que desequilibra o Kingdoms no momento, Salazar.

– Quem é Salazar? – Falou surpreso.

– Um homem que vendeu sua alma e corpo para o Deus maligno Sharkran, irmão do Deus supremo Kindar. Banido do reino dos deuses por enganar e tentar usufruir do trono ocupado por seu irmão. Isso o deu a maldição mais terrível possível, não pode ser quem é perante a luz, somente nas trevas.

– E quem é Sharkran quando existe luz? – perguntou Gartur curioso.

– Ele não é visto como um homem, mas sim como uma besta enorme com cinco cabeças de dragão. Os antigos o chamam de Tiamat. E quando o sol vai embora e as trevas chegam, Sharkran volta a sua forma humana.

– E por que Salazar venderia sua alma a Sharkran?

– Para conseguir o poder de uma de suas cabeças, o poder do fogo. Salazar já foi um homem como você, hoje ele é um dragão vermelho, responsável pela destruição de Lortrus, e por lá selarem segredos perigosos. Eles precisam de sua ajuda, ou quando chegar sua vez de ser o incenso, será o último, e nem conseguirá chegar até o final de seu aroma.

– Eu irei – Gartur fez uma reverência a seu mestre – obrigado por sua paciência ao ensinar-me.

– O prazer foi meu, mestre Gartur – Miurka devolveu a reverência – Encontre seu caminho.

– E uma última coisa – Miurka levantou a sobrancelha como a primeira vez – como saberei quando voltar para a cidade dos sábios?

– Você saberá.

Essas foram as últimas palavras ditas pelo grande Pandawan, até que Gartur iniciasse a descida e rumasse para seu destino. Passou pelo arco com as palavras “VIDA & MORTE”. Agora sabia o que elas diziam e significavam em sua vida.

“A esperança. A esperança só acaba após a morte, até lá, eu irei atrás do meu objetivo, que é viver” – pensou, dando seus primeiros passos do lugar de onde passou seus últimos anos.

Sem olhar para trás, Gartur iniciou a descida com uma pequena trouxa de roupa e mantimento nas costas. O ventou voltou a soprar fortemente e o ar gélido voltou a rodear seu corpo. Incrivelmente o ar já não parecia tão gelado, sua alma estava aquecendo sua parte física.

 

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